21.10.11

Adversidade e Superação

O seu nascimento foi um desafio ao bom-senso. Nono filho de uma família miserável, sua mãe, sifilítica e debilitada, teve de lutar com todas as forças contra a realização do aborto, colocando em risco a própria vida em nome de uma que todos já davam por perdida. Mas ele vingou, e, a cada nova dificuldade que enfrentava, parecia se fazer mais vivo e vigoroso. Tornou-se instrumentista, compositor, e, quando achou que finalmente havia se estabelecido acima do alcance das adversidades, ganhando o controle da sua vida, descobriu que estava perdendo a audição.

Estou falando de Ludwig van Beethoven, um dos maiores nomes da música em toda a história. Imagine um escultor perder o movimento das mãos. Ou um pintor ser privado dos seus olhos. Beethoven estava fadado a perder a audição. Uma carreira composta por uma musicalidade vibrante, arrebatada, humana, era ameaçada justamente pela humanidade do artista. A história escrita em contrapontos e sons grandiloquentes chegava a um compasso de silêncio. Um sinal de pausa, adornado por uma fermata. Mais do que uma subtração de ordem física, o musicista sofreu uma amputação na sua alma. Como você reagiria? Beethoven reagiu com mais brilhantismo musical, levado pela ebulição da sua personalidade, que, de tão apaixonadamente humana, fez-se sobre-humana. A sua última composição, a nona sinfonia, foi escrita quando ele já estava quase totalmente surdo. Há quem diga ser por isso que a peça contenha notas tão absurdamente agudas, quase acima da capacidade fonadora do homem. Eu penso de outro modo. Eu acredito que Beethoven haja tentado expressar, na pauta, a sua própria superação na vida. Mais do que uma grande música, a nona sinfonia é uma ode à humanidade, e sua execução desafia os limites dos intérpretes.

Há pessoas que enxergam as adversidades da vida como uma barreira intransponível, diante de cuja grandeza são impelidas a recuar. Outras pessoas são mais enérgicas, e, confrontadas por obstáculos, simplesmente redirecionam o curso das suas forças e contornam a dificuldade. Outras há, como Beethoven, que sustentam a sua corrente natural, e, quando oprimidas pela contingência, passam a se acumular em si mesmas, continuamente, até o inevitável transbordamento, tal qual um rio violento que atravessa a barragem. Cabe a cada um de nós agir de um ou de outro modo. Toda pessoa é livre para limitar a sua própria vida. Ou para fazer dela um fluxo irreversível e superante.

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