8.12.11

Calmo carma

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Parte I: Vida

Calmamente deixa a vida verter.
Serena, sente o seu leve existir.
Livremente desafia o morrer
Porque simplesmente ignora o porvir.

Sempre calculadamente no chão
Como a escalar regiões do firmamento,
Vem recostar à terra a fina mão
Pra acariciar o próprio tegumento.

Sua matéria reflete o espaço vasto
Conferindo à luz uma luz melhor.
Ao passar desenha um brilhante rasto
Desaguando luzes ao seu redor.

Obliquamente segura em si mesma
(Incomum beleza na face fria)
Ela chega ao pé de mim: uma lesma!
Veementemente asquerosa e vazia.

Afinal, o belo (esse ideal indômito)
É uma simples retina malfazeja.
Assim é: nascer não é mais que o vômito
De uma náusea do universo. Assim seja!



Parte II: Morte

A mole lesma percebe o edifício
Fitando-a do alto de um nojo comum.
Mas, pegajosa, segue seu ofício
De arrastar seu ser sem destino algum.

O amodorrado molusco me enxerga
Já a levantar o pé, que mira e o esmaga!
A viscosa víscera então enverga
Numa hemorragia pastosa e vaga.

Do brilho e do rasto ficou só um resto.
Da languidez restou a inércia inata.
Do aspecto estranho restou um funesto
Sabor, conhecido de longa data.

“A paciência será recompensada”,
Esse é o lema que a vil lesma carrega.
Entretanto, quem dela é encarregada
É a velha Justiça Suprema cega.

Mesmo se não encontrasse o meu pé,
A lesma sucumbiria ao final.
Por mais que conservasse a força e a fé
Sempre a espreitaria ou a sola ou o sal.

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