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“No Caminho de Swann” é um livro que não aceita um rótulo estilístico específico (como toda obra de gênio), possuindo características do impressionismo, do simbolismo, do realismo psicológico. O enredo do primeiro livro da obra “Em busca do tempo perdido” é a vida provinciana de Proust no período que vai da infância até a sua primeira idade adulta, passando por episódios com outros personagens (como Charles Swann, Sr. Vinteil) e retornando à vida do autor. Contudo, os fatos exteriores narrados constituem apenas o pano de funda da obra francesa. O verdadeiro sumo da narrativa é a vida interior dos personagens, seus conflitos psíquicos, os movimentos das suas vontades e as lutas do seu espírito, tudo isso em meio à torrente avassaladora do tempo.
Proust se mostra o que se poderia chamar de positivista metafísico. Ele corta a dimensão da sua vida empírica no plano transcendente de uma incursão psicológica. O escritor parte da superfície dos fatos cotidianos e vai deslizando em níveis de aprofundamento que configuram uma alteração de natureza do objeto analisado, como um geólogo que investiga propriedades telúricas e, partindo para estratos mais interiores do solo, atravessa rochas sedimentares, massas magmáticas, até atingir o coração metálico do planeta. Assim, Proust mergulha na sua psique, passa pela casca das recordações, atravessa regiões profundas de sinestesia, até alcançar o que ele chama de “memória involuntária”, que são paragens abissais do espírito em que hibernam fragmentos de um passado vivo.
Reputa-se a Heráclito o pensamento segundo o qual “Nenhum homem pode cruzar duas vezes o mesmo rio. Nem o homem será o mesmo, nem o rio será o mesmo”. Proust busca dentro de si vestígios sobreviventes desse passado sepultado. Ele busca uma gota daquele rio, que encerre as propriedades químicas daquele líquido e as características físicas daquela corrente. Ele busca uma célula daquele homem, que guarde o genótipo e o fenótipo daquela existência anterior. Mas não uma célula qualquer – uma célula-tronco, que guarde a força genesíaca da vida em potencial de fluência.
Proust acredita que esse insight mnemônico emerge na vida das pessoas de modo fortuito, como na passagem em que relata todo o universo despertado por uma bolacha madeleine, iniciada pelo excerto: “Acho bem razoável a crença céltica de que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós até o dia, que para muitas não chega jamais, em que ocorre passarmos perto da arvore, ou entrarmos na posse do objeto que é sua prisão. Então eles palpitam, nos chamam, e tão logo as tenhamos reconhecido o encanto se quebra. Libertas por nós, elas venceram a morte e voltam a viver conosco. O mesmo se dá com o nosso passado. É trabalho baldado procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência serão inúteis. Está escondido, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que esse objeto material nos daria), que estamos longe de suspeitar. Tal objeto depende apenas do acaso para que o reencontremos antes de morrer, ou que o não encontremos jamais”.
Todavia, embora considere essa catarse obra integral do acaso, Proust consagra sua obra máxima à realização dessa mesma busca, numa desesperada tentativa de triunfo sobre o fluxo destrutivo do tempo. Para Proust, o tempo arruína todas as coisas, desbastadas pela sua corrente contínua. Entretanto, diante de uma possibilidade de salvação (o ressuscitamento da vida adormecida nas memórias involuntárias), é irresistível a força que o impele a essa tarefa.
O livro é uma cartografia do espírito de Proust, desenhada na dupla esperança de um acidente: na melhor das hipóteses, despertar memórias involuntárias e entrar em contato com a intemporalidade e a universalidade; na outra, apenas reviver um excedente de vida impregnado nas lembranças por meio do seu contato com elas. Tudo isso diluído na busca fundamental de, como sugere o título da obra, encontrar o tempo perdido.
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